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TELEFÉRICO DO HORTO

O transporte que divide opiniões

Por:
Amanda Braga, David Braga, Gabriel Silva e Sebastião Arrais.

Localizado na cidade de Juazeiro do Norte, o Teleférico do Horto liga a Praça dos Romeiros à área onde se encontra a estátua de Padre Cícero, o mais visitado ponto turístico da cidade. Em um local como Juazeiro do Norte, que concentra a terceira maior população do Ceará e recebe milhares de romeiros todos os anos, qualquer investimento em transporte público pode se tornar crucial para o desenvolvimento da mobilidade urbana e do fluxo da economia, desde que esse transporte seja acessível para as pessoas que fluem em seu entorno. Inaugurado em 28 de março de 2022, o Teleférico do Horto foi concebido inicialmente como um equipamento que poderia fomentar a economia do município, tendo em vista que facilita consideravelmente o acesso ao mais famoso ponto turístico da terra dos romeiros, por uma bagatela de R$ 30 que inclui as passagens de ida e volta.

O preço para utilizar o teleférico - que não coube no bolso de quem antes usava o equipamento regularmente durante sua gratuidade - gerou comentários principalmente entre os moradores da Colina do Horto, que viram o novo investimento passar a se tornar progressivamente mais caro e fora de suas realidades. A partir daí, tornou-se comum notar que ele deixou de ser acessível para os moradores de seu entorno, para se transformar em um referencial maior para turistas de outros municípios e regiões. Mas até que ponto o teleférico pode deixar de ser um ponto turístico de referência na cidade, para se tornar um meio de transporte acessível e confortável à população?

Os moradores que residem nos bairros Horto e Salgadinho têm direito à gratuidade de duas passagens por dia, mas boa parte dos entrevistados que aceitaram conversar sobre o equipamento relataram uma grande burocracia na hora de solicitar esse benefício, e a maioria disse não possuir parte da documentação necessária. Nessas conversas com moradores e comerciantes nos arredores da estátua de Padre Cícero, encontramos opiniões adversas, populares e controversas. O destaque é o fato de que, mesmo morando a poucos metros de distância do teleférico, a maioria dos entrevistados deixou de usá-lo com o fim da gratuidade.

“Na época que tava grátis eu usava muito frequentemente. Parei de utilizar depois do valor, e eu não tenho a documentação completa para solicitar gratuidade. Hoje em dia eu não tenho condição de usar”.

Maria da Glória, moradora do Horto

“Sendo pago, quase ninguém daqui vai, só os turistas mesmo. Eu nunca andei, e quando ia andar começaram a cobrar, aí não fui ainda. Hoje em dia ninguém aqui do Horto usa mais. É melhor comprar um jegue”.

Maria Natália, moradora do Horto.

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A bilheteria do teleférico funciona das 08:30 às 16:30, e o embarque pode ser feito a partir das 09:00 até as 17:00. O equipamento começou a cobrar ingressos em novembro de 2022, com valores de R$ 30 para entrada inteira, incluindo passagens de ida e volta, e R$15 para passagens apenas de ida. Já a meia entrada dá direito a passagens de R$ 15 para ida e volta, e R$ 7,50 apenas para ida. É possível ter conhecimento desses valores através das redes sociais do teleférico, sendo possível também encontrar um guia especificando o público que possui direito à meia entrada, e quais documentos são necessários para sua comprovação. Crianças menores de 3 anos têm direito à gratuidade, e moradores dos bairros Horto e Salgadinho podem conseguir essa gratuidade mediante cadastro.

Enquanto ponto turístico, o preço do teleférico parece ser razoável para uma parte dos comerciantes que trabalham nas redondezas do local. Nota-se ainda que até mesmo os mais favoráveis aos valores ainda citam os romeiros como exemplo, sinalizando seu alto preço para uma esfera da população que é predominantemente pertencente às classes baixa e média baixa.

“Já usei o teleférico e achei perfeito, mas não uso com frequência porque moro um pouco mais distante. Prefiro o ônibus. Tô sabendo que é R$ 30 agora. Têm os romeiros e os turistas, devia ser mais barato.”

Irismar, 53 anos, comerciante na Colina do Horto.

"Para quem quer pagar de forma diária, fica um pouco caro. Mas de volta à realidade do teleférico, é um preço muito acessível, porque são só R$ 30 para subir e descer esse percurso, né? É barato. E têm os ônibus, quem não quiser ir de teleférico pode ir de ônibus.”

Antônio Raimundo Andrade, comerciante e morador na Colina do Horto há 35 anos.

Foto: Sebastião Arrais

“O valor pro turista pode estar bom, mas para utilizar como meio de transporte está alto. Eu vou só uma vez na vida, mas o orçamento é pouco pra usar com frequência, ainda mais com um salário de apenas R$ 1320”.

Marineide Vitalina da Silva, moradora do Horto e comerciante no local há 17 anos.

Com ordem de serviço assinada no dia 08 de novembro de 2019 pelo então governador Camilo Santana em uma Sessão Itinerante da Assembleia Legislativa, foi dito que o equipamento poderia transportar até mil passageiros por hora, com 10 passageiros sentados em uma viagem de aproximadamente 11 minutos. O equipamento é gerido pela Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (SEMA), em parceria com o Instituto Dragão do Mar.

O gerente administrativo financeiro Kelvin Izael Rocha, do Instituto Dragão do Mar, explica que a maquinaria foi fornecida pela empresa austríaca Doppelmayr Cable Car. “As pessoas utilizam esse equipamento como forma de entretenimento, como também de transporte de mobilidade urbana, levando passageiros de um bairro até outro. Apesar do Horto ser importante no turismo, ali é um bairro muito grande por si só”, complementa o gerente. 

Retornando à questão da mobilidade urbana, e aos comentários feitos por grande parte dos moradores e turistas, percebe-se que é uma mobilidade que parece não ser tão financeiramente viável em muitos aspectos, sendo algo perceptível nas falas de boa parte dos passageiros que concederam opiniões para essa reportagem.

“Eu acho que deveria ser um pouco mais acessível, porque tem muita gente que gostaria de vir aqui fazer esse passeio, que é uma novidade para a cidade. Eu acho que o preço tá muito acima do que é desejado pela população. Eu acredito que se fosse mais acessível, pessoas mais pobres e de baixa renda poderiam fazer esse passeio. Duas pessoas, como eu e meu marido, por exemplo, para ir e voltar por R$ 30 , sai um pouco pesado. Acredito que um preço mais acessível poderia trazer até mais viagens para esse teleférico.”

Lúcia Constantino, natural de Juazeiro do Norte, e residente na cidade de São Paulo. Estava como turista no Teleférico do Horto.

“Podia ser mais barato, porque pra população daqui eu acredito que não seja tão barato. Se fosse mais acessível seria bem melhor. Fazer o passeio mais de uma vez se torna complicado para quem não tem uma boa renda.”

José Wellington, natural de Juazeiro do Norte e residente na cidade de Crato. Estava como turista com o seu filho (menor de idade), e desistiu de fazer o passeio por ter medo de altura e considerar o preço alto.

“Achei o valor bom só pra ir, acredito que seria melhor se fosse cobrado o valor de R$ 15 para ir e voltar. A paisagem é bonita e essa é a primeira vez que ando em um teleférico.”

Bruna Nicolette, turista.

“Para os turistas, pode até ser bom, mas pra quem mora aqui na região o valor se torna bem salgado. Imagina só como não ficaria para uma família de cinco pessoas que tem vontade de fazer o passeio.”

Francisca Pereira, turista.

De acordo com o gestor executivo do Instituto Dragão do Mar, Ícaro Costa, o teleférico atende mensalmente cerca de 20 mil pessoas, e que apenas 400 moradores do bairro Horto estão cadastrados no programa que dá direito à gratuidade.

Os altos preços cobrados para viagens neste equipamento já movimentaram diversos comentários de insatisfação nas redes sociais, o que impede inclusive uma maior divulgação do Teleférico do Horto em sua página no Instagram. A conta responsável por divulgar o teleférico e as atividades culturais que acontecem no Complexo Ambiental Caminhos do Horto faz pouquíssimos posts realçando o equipamento em si, já que a quantidade de críticas nos comentários, seja a respeito dos preços; seja a respeito da temperatura da cabine; acabam se sobressaindo por vezes e chamando a atenção.

A equipe desta reportagem tentou entrar em contato com fontes ligadas à gerência do Teleférico do Horto, para questionar o motivo dos altos preços para viagens no equipamento, mas não obteve resposta.

  Teleférico do Horto: O transporte que divide opiniões

Uma reportagem por estudantes do 4º semestre do curso de jornalismo da Universidade Federal do Cariri (UFCA).

Produzido por:
Amanda Braga, David Braga, Gabriel Silva e Sebastião Arrais.

Professor Orientador:
Ivan Satuf

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